A grande virtude de “Morte no Funeral” é reciclar os elementos da comédia clássica de humor negro e da farsa tradicional britânica, dando-lhes um toque de modernidade, atualizando situações e personagens. Neste sentido, a inventividade surge logo na abertura, quando uma animação mostra o trajeto de um carro funerário, o qual, ao chegar ao destino, revela sua primeira surpresa.
Trata-se do funeral de Eddie, um querido e respeitado empresário. A luxuosa casa de campo vai recebendo os familiares e amigos e nesse cenário os irrequietos personagens vão formando uma galeria humana heterogênea, na qual cada um procura cuidar de seus interesses pessoais. Paulatinamente e sem pressa, as situações vão ganhando irreverência e acidez, mesclando-se entre o dramático e o patético.
Apesar de dezenas de personagens em cena, a narrativa não gera confusão para o espectador, pois os acontecimentos transitam por dois personagens centrais. Daniel (Matthew Macfadyen), o filho mais novo, que apesar de casado com Jane (Keeley Hawes), ainda mora na casa administrando os interesses da família e planeja sair dali a pedido da mulher; e Martha (Daisy Donovan), sua prima, que leva consigo o noivo, Simon (Alan Tudyk), o qual pretende apresentar ao pai, Victor (Peter Egan), um médico esnobe e exigente.
Daniel e Martha vão assistindo a um progressivo e irrefreável descontrole da normalidade, um “efeito borboleta”, primeiro com Simon, que sob o efeito de uma cápsula de alucinógeno vai subvertendo as normas da moralidade, e mais adiante com Peter (Peter Dinklage, de “O Agente da Estação”), um visitante inesperado que leva a Daniel um segredo para lá de imoral para a tradicional, pacata e moralista família.
O caos instala-se no funeral num ritmo vertiginoso, quebrando o senso de moral de forma cínica, debochada, ácida e satírica. O desnudamento dos personagens revela o grau de hipocrisia de cada um deles e o embate entre Daniel e o irmão mais velho, Rupert (Rupert Graves), um escritor bem sucedido, revela o confronto das relações familiares. Martha, por sua vez, paga pela “obsessão” de Justin (Ewen Bremner), um sujeito com o qual ela deu uma “transada” e agora se arrepende amargamente pois o homem “encarnou” de vez. Há ainda outros personagens que destilam sordidez e desprezo pelos semelhantes, como o ranzinza e arrogante tio Alfie (Peter Vaughan), um sujeito execrável, figura de uma hilária cena num dos banheiros da mansão.
Surpreendente, “Morte no Funeral”, ao levar na pagodeira o senso de moral, os tabus e os preconceitos das sociedades conservadoras e das famílias “preservadoras da moral e dos bons costumes” renova os ingredientes da comédia farsesca e do humor negro do cinema britânico. O segredo filme está no molho: a harmoniosa mistura de ironia, farsa, deboche, cinismo. Vale o preço do ingresso.