Terminada a exibição de “10 Mil Anos a.C”, fica-se a perguntar aonde o diretor Roland Emmerich queria chegar. A história, fraquinha de dar dó, passa por tantos elementos interessantes e situações absurdas que não tem como ser levada a sério. A primeira impressão, aquela que fica, é a de que Emmerich quis fazer algo espetacular sobre a pré-história humana.
O crítico Celso Sabadin, também encontra dificuldade em definir o cinema de Emmerich. Segundo ele, ele só pode ser um gozador. “Um cineasta que manipula a imagem com tamanho preciosismo seria capaz de imprimir à sua narrativa um tom tão, digamos, cafona e ultrapassado, se não fosse por motivações satíricas? Quero acreditar que não. Quero crer que, sim, Roland Emmerich é um gozador. Um pregador de peças, como a que criou com o próprio nome do anti-herói do filme ‘10.000 Anos a.C’ – D’Leh –, a palavra “herói” em alemão, escrita ao contrário”. Sabadin pode ter razão. Emmerich, um cineasta inteligente, profundo conhecedor de sua profissão, deve estar gozando não com todo mundo... mas com a indústria, e, no caso, do filme, com os espectadores e a própria história.
“10.000 Anos a.C”, ambientado na época pleistocena, mostra-se um amontoado de problemas. Primeiro, no enredo incapaz relacionar-se com o verossímil, sem o fascínio capaz de dar emoção ao espectador; segundo, na correria da narrativa, que não dá tempo para qualquer formulação dramática às situações e personagens; terceiro, pela ausência do clima de realidade com os atores falando um inglês fluente e usando roupas que parecem de um linho impecável; quarto, pela incoerência de colocar na tela atores como tipo físico mais para os tempos de hoje do que para o passado remoto do homem; e quinto, pela desigualdade dos efeitos especiais, ótimos com o dente de sabre e os mamutes, mas ruim na montagem do cenário das pirâmides no uso do chroma Key – elementos de fundo inseridos no cenários.
No entanto, “10.000 Anos a.C” é, das obras de Emmerich, a que mais puxa pela reflexão. O enredo centra-se em três pontos: no primeiro, o que se compreende por natureza, o mundo físico, como definem os livros, “o conjunto dos reinos mineral, vegetal e animal considerado como um todo submetido a leis, às leis da natureza”; no segundo, o que se compreende por místico, as coisas do mundo divino e espiritual, no contexto filme, como um bloco, o misticismo, as lendas, crenças e profecias, aquilo que forma a tradição popular; inserindo-se entre ambos, o homem, no início de sua jornada e de atos atrelados às coisas do desconhecido. O que se lamenta em “10.000 Anos a.C” é o fato de desperdiçar a chance de retratar com realismo um tempo de profunda transformação no planeta e em que a evolução humana atingia seu momento determinante na passagem do Homo Sapiens para o que somos hoje.
Roland Emmerich, nascido em Stuttgart há 52 anos, se especializou em criar filmes de grandioso efeito espetacular, de elaboradas seqüências em que os efeitos especiais tiram o fôlego, a ação, arrebatadora e o amor grandiloqüente. Ou seja, tudo pomposo, magnificente – se possível ao exagero. Artesão de inegável talento para o cinema-espetáculo, tem abordado temas capaz de causar efeitos nas grandes platéias: a invasão da Terra por sanguinários alienígenas (“Independence Day”, 1996); a destruição de metrópoles por monstros gigantescos (“Godzilla”, 98), as grandes batalhas históricas (“O Patriota”, 2000) e o fim do mundo (“O Dia Depois do Amanhã”, 2004).