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O homem incomum e o Tempo
 

Tendo o tempo como um personagem, “O Curioso Caso de Benjamin Button” promove reflexões sobre as circunstâncias da existência humana, a amplitude da vida, a necessidade de amar, o sentido do perdão e a onipresença da morte

PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema

Nunca um início de temporada cinematográfica colocou tantos filmes importantes em cartaz. “O Curioso caso de Benjamin Button”, em estréia hoje, se constitui na primeira obra-prima do ano. Projeto considerado de impossível transposição para as telas e acalentado por décadas pelo trio David Fincher-Brad Pitt-Eric Roth, o filme transpira e exala reflexões ao forçar o espectador a pensar na vida como sentido existencial agregado ao tempo, através da história de um homem incomum que nasce velho para morrer jovem.

F. Scott Fitzgerald (1896-1940) escreveu o conto “O Curioso Caso de Benjamin Button” em 1920, intrigado com a afirmação feita por outro escritor, Mark Twain (1835-1910): “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”. Samuel Langhorne Clemens, o Mark Twain, pode até ter razão, mas a inversão no sentido horário da vida – conforme o filme - não alteraria muito os acontecimentos na existência humana.

Sim, porque o ser humano está fadado ao mesmo processo determinado pelas circunstâncias do existir. Isso representa ao fato de responder pelos seus atos e estar dependente do outro, com o qual estabelece diversas relações: maternas, paternas, sentimentais, amigáveis, físicas, etc. É o seu destino único e vital.  Porque a existência só tem sentido se moldada na superioridade moral e nos princípios éticos, ou seja, no respeito aos semelhantes, na capacidade do perdão, na disposição de amar, na condução da consciência para uma vida digna. Todos esses princípios e superioridades acompanham Benjamin Button em toda a sua existência. Uma existência marcada pelo tempo que segue implacável a sua imutável duração, determinando a duração de cada vida.

O tempo, na reflexiva narrativa de “O Curioso Caso de Benjamin Button” é um autêntico personagem. Não há como tirá-lo da história, pois condutor dos acontecimentos. À medida que esse tempo evolui, Benjamin Button também, mesmo no sentido contrário ao “normal” da existência humana. Um relógio criado por um homem amargurado com a perda do filho único na primeira guerra mundial é o senhor da trajetória às avessas de Benjamin Button. Ele nasce ao mesmo tempo em que o relógio é inaugurado numa estação de trem, com seus ponteiros girando ao contrário. Enquanto as pessoas comuns avançam em suas idades, Button, ao correr do inusitado relógio, retrocede da velhice à idade materna. Durante essa jornada marcada por alegria e dor (a principal delas, ver as pessoas amadas morrendo inesperadamente ou de velhice ) ele estabelece uma existência digna: aprende a exercê-la  intensamente, vive o amor e a tristeza da perda, o perdão e o respeito ao outro em seus princípios sociais, pessoais, religiosos...

“O Curioso Caso de Benjamin Button”, em sua história incomum, faz refletir ao mostrar que não interessa como a vida corre, se normal ou ao contrário, pois os estabelecidos do processo são os mesmos (tudo é efêmero, a morte, onipresente), mas como cada um vive a sua vida. Exercê-la na dignidade e não desperdiçá-la são os princípios fundamentais.

Mais informações

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008), de David Finhcer. Com Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson e Julia Ormond.

Acrescentar duração e classificação etária.

 

 
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